OPINIÃO: externalidade não pode ser desculpa para desleixo com o passageiro

Por , em 21 de novembro de 2016.

É certo que interferências cujas responsabilidades não são das empresas de ônibus prejudicam os serviços, mas há erros evidentes e de culpa do mau prestador de serviço, que macula a imagem de quem quer trabalhar bem.

Passageiros empurram ônibus quebrado. Foto/Arquivo

Passageiros empurram ônibus quebrado. Foto/Arquivo.

Numa cultura em que ainda se incentiva o uso do veículo particular em detrimento do transporte público, refletindo assim nos investimentos e nas políticas adotadas pelos gestores, realmente, é muito difícil prestar um serviço ideal de transporte coletivo. Os ônibus, por exemplo, têm pouca prioridade no espaço urbano, mesmo transportando, em média, 20 vezes mais que um carro, e proporcionalmente ocupando cinco vezes menos as já conturbadas ruas e avenidas das cidades.

O transporte coletivo vive diferentes gargalos. Os ônibus ficam presos nos congestionamentos; as tarifas são caras para o passageiro, mas insuficientes para cobrir os custos; não há uma infraestrutura adequada para colocar ônibus mais confortáveis e acessíveis em todos os sistemas; vandalismo e violência são preocupações de quem trabalha com transportes. Tudo isso, obviamente, interfere na qualidade dos serviços sem que a empresa de ônibus possa fazer muita coisa. Mesmo assim, ela é responsabilizada pelo usuário.

Um dos reflexos disso, nocivos inclusive para a qualidade de vida nas cidades que precisam reduzir o trânsito e a poluição, é a perda de passageiros dos transportes coletivos e, consequentemente, da eficiência. Hoje, são necessários mais ônibus para transportar menos pessoas, o que implica custos maiores.

De acordo com a Associação Nacional das Empresas de Transportes Urbanos – NTU, entre 1994 e o primeiro semestre de 2016, houve uma queda de 33% na demanda do transporte coletivo, apesar do crescimento populacional. A produtividade de cada ônibus diminuiu mais da metade no período. Em 1994, cada ônibus transportava entre 800 e 900 passageiros por dia, em média, no Brasil. Agora, são 480 passageiros por ônibus. É uma discussão ainda pouco aprofundada na sociedade, e, principalmente, entre os oportunistas políticos.

No entanto, a verdade que precisa ser ressaltada para o bem do setor, inclusive para os empresários de ônibus que pensam no passageiro como cliente e não apenas como um usuário, é que as tais externalidades também têm sido pretextos para quem não quer prestar um serviço direito e se acha protegido pela tal concessão. “Ganhei a licitação, só preciso colocar ônibus na rua”. O empresário que pensa assim perderá e prejudicará os outros empresários e, claro, principalmente, a população.

Hoje, os ônibus sofrem todo tipo de concorrência. Com o gasto mensal da passagem, a pessoa pode financiar uma moto usada (ou até nova). Os carros que ganharam, ao longo da história, incentivos fiscais com valores maiores do que foi destinado à saúde e educação também podem ser comprados facilmente. Aplicativos de transporte e táxis mais baratos também concorrem com o transporte coletivo, mas muito empresário de ônibus ainda tem a cabeça na “tal licitação ganha”.

A licitação pode ser ganha uma vez, mas o passageiro tem de se “ganhar” todos os dias. Por isso, cada detalhe deve ser pensado para conquistar o cliente, fidelizar o público e, acima de tudo, tratar o cidadão e o ser humano como merecem.

O ônibus atrasar por causa de um congestionamento, de uma enchente de uma manifestação, entre outras situações, é externalidade. Mas porque a ordem de serviço não foi cumprida pelo fato de um empresário, muitas vezes, matar a viagem que não dá tanto lucro (e, acreditem, isso ainda acontece muito), aí é falta de responsabilidade do prestador de serviços.

O ônibus quebrar por causa de um buraco na rua, por causa de um desnível, pode acontecer. Agora, convenhamos, existem empresas que também não cuidam muito bem da conservação de seus veículos. O ônibus passou numa comunidade que não tem asfalto e, por exemplo, tem seu corredor interno sujo de barro, faz parte da operação. Já ônibus com baratas, papel acumulado de vários dias (o passageiro infelizmente coloca lá, mas tem que ser limpo), com reparos malfeitos, até mesmo cantos vivos de bancos e componentes do interior do ônibus que podem machucar o passageiro, ou seja, o cliente, aí é desleixo puro.

Ela (a barata) viaja com mais tranquilidade do que qualquer outro passageiro.

Ela (a barata) viaja com mais tranquilidade do que qualquer outro passageiro.

Por isso, a população deve estar de olho na prestação dos serviços, e o gerenciado gerenciar. Cabe sim à população reclamar por tudo e cabe ao poder público ser isento, compromissado com quem o elegeu, e não com quem o financiou na campanha, verificar de quem é a responsabilidade pelo fato relatado na reclamação, criar políticas que incentivem a boa operação e sim, depois, punir severamente.

Um bom empresário leria esse texto e gostaria, porque ele não quer ter o seu bom serviço ou sua categoria manchados por causa de meia dúzia de empresários que ainda pensam que passageiro é pior que gado para o abate a ser transportado. Comunicar-se com o passageiro, não apenas pelos tradicionais SACs telefônicos, mas também por redes sociais, aplicativos, informativos nos veículos deve ser algo que o bom e moderno prestador de serviços de transporte deve observar.

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