CAIO estaria entre os investidores que propuseram compra da Busscar, dizem ex-funcionários a jornal

Por , em 10 de novembro de 2016.

Justiça autorizou o pagamento de R$ 18 milhões para a massa falida. Venda de igreja ligada à fábrica rendeu R$ 1,1 milhão.

Ônibus da Busscar (em primeiro plano) e da CAIO (ao fundo) em garagem de empresa de São Bernardo do Campo, no ABC. CAIO tem expressão apenas no mercado de urbanos. Foto: Adamo Bazani.

Ônibus da Busscar (em primeiro plano) e da CAIO (ao fundo) em garagem de empresa de São Bernardo do Campo, no ABC. CAIO tem expressão apenas no mercado de urbanos. Foto: Adamo Bazani.

Na semana retrasada, um grupo de investidores apresentou ao juiz Walter Santin Júnior, da 5ª Vara Cível de Joinville, proposta para a compra das três plantas da Busscar, além do maquinário, a fim de voltar a produzir o ônibus em meados de 2017. O valor proposto foi de R$ 67,15 milhões, compatível aos 49% da avaliação exigidos pela Justiça. A avaliação total da planta de carrocerias em Joinville, da unidade de Pirabeiraba, e da unidade de Rio Negrinho, com a fábrica de peças, foi de R$ 133.151.088,11.

A compra se daria em 52 parcelas: entrada de 14%, o que equivale a R$ 9,4 milhões, e o restante, R$ 57,74 milhões corrigidos por índice determinado pelo Tribunal de Justiça.

Para preservar a negociação, a Justiça, entretanto, manteve em sigilo os nomes dos investidores. Mas um protesto de ex-funcionários da Busscar pode revelar a possível concretização de um “namoro antigo”.

Líder de um grupo de ex-funcionários, Esbaldini Testoni diz que dirigentes da CAIO, encarroçadora pertencente ao Grupo Ruas (empresário de ônibus de São Paulo), com sede em Botucatu, no interior de São Paulo, estariam entre os investidores. Na opinião de Testoni, porém, o valor apresentado é muito baixo e poderia deixar cerca de quatro mil credores sem os recursos suficientes. A declaração foi dada ao jornalista Luiz Verissimo, do jornal local Notícias do Dia, que publicou a seguinte informação:

“Um grupo de ex-funcionários da Busscar no WhatsApp criticou o possível interesse da ex-concorrente Caio em assumir os ativos operacionais da massa falida por um preço que classificaram de ‘doação’. Um dia depois, eles tomaram conhecimento que a 5ª Vara Cível tornou pública a oferta de aproximadamente R$ 70 milhões em 50 parcelas mensais. Esbaldini Testoni, que está à frente do movimento dos ex-funcionários deste a crise de 2008, garante que este valor anunciado e o que já foi leiloado – cerca de R$ 100 milhões – deixarão cerca de quatro mil credores trabalhistas da classe concursal sem ‘um centavo’. Esta categoria é a última a ser paga em caso de falência. Testoni adianta que o valor anunciado será suficiente para pagar os ‘extra concursais’, que segundo a lei têm preferência. Não vai sobrar nada para eles (quatro mil de concursais). ‘A Justiça avaliou o patrimônio operacional em R$ 350 milhões e agora querem doar por R$ 70 milhões?’, perguntou Testoni. Ele defende que a venda do patrimônio que restou seja feita de forma fatiada. ‘Vender a marcenaria, a pintura, máquinas e o terreno separadamente’, explicou Testoni”.

CAIO E NAMORO ANTIGO

Desde a última sexta-feira, por e-mail, o Diário do Transporte entrou em contato com a assessoria de imprensa da CAIO. Somente nessa terça-feira, 08 de novembro, a empresa respondeu, negando a informação do jornal.

A Justiça diz que a identificação ainda não será revelada oficialmente. Entretanto, o namoro entre a empresa de Botucatu, atualmente especializada apenas em ônibus urbanos, e que não preenche o mercado de ônibus rodoviários, é antigo. Desde setembro de 2011, antes mesmo da falência da Busscar, a CAIO já tinha confirmado interesse na encarroçadora de Joinville. Relembre.

Em outubro daquele ano, porém, a Justiça indeferiu a proposta da CAIO, que previa pagamento de R$ 40 milhões pelo complexo.

Em 2013, a CAIO voltou a apresentar outra proposta, dessa vez, para aluguel da Busscar. Essa proposta também foi recusada pela Justiça. Todas as propostas foram apresentadas em período anterior à crise econômica.

DINHEIRO PARA ADMINISTRADORES E VENDA DE IGREJA

Responsável pelo processo de falência da Busscar, o juiz Walter Santin Júnior, da 5ª Vara Cível de Joinville, autorizou a liberação, até o final deste mês, de R$ 18 milhões para o administrador judicial e seus auxiliares. Trata-se dos créditos trabalhistas extraconcursais. Os R$ 18 milhões representam 30% dos créditos trabalhistas extraconcursais.

Em nota enviada ao Diário do Transporte, o Tribunal de Justiça de Santa Catarina também informou que o magistrado, na mesma decisão, confirmou a venda de um imóvel junto à fábrica que era usado como igreja pela família fundadora da Busscar para outra instituição religiosa, e também confirmou a posse da Tecnofibras S.A., que era da Busscar, pela Jointech Industrial. Confira:

O juiz Walter Santin Júnior, lotado na 5ª Vara Cível da comarca de Joinville, determinou o pagamento de 30% de créditos trabalhistas extraconcursais – créditos preferenciais constituídos na ação de falência da Busscar. A liberação dos valores será feita 25 dias após a intimação do administrador judicial, em cheque nominal a cada um dos credores.

Na mesma decisão, o magistrado homologou a venda do imóvel constituído do lote 36, com 1.000 m² de área e edificação de 409 m², pelo valor de R$ 1,1 milhão em leilão judicial à União Sul Brasil da Igreja Adventista do 7º Dia. Santin Júnior autorizou, ainda, imissão de posse pela Jointech Industrial, que arrematou a unidade fabril Tecnofibras S.A., com efeitos a partir de 1º de novembro de 2016.

A medida foi tomada após a empresa obter alvará provisório de licença para localização e permanência pelo prazo de um ano contado de 20 de outubro de 2016 e aferição de que, pelas atividades nele descritas, pode logo operar.

BREVE HISTÓRICO

A Busscar foi fundada oficialmente como Nielson no dia 17 de setembro de 1946, com iniciativa de Augusto e Eugênio Nielson, que começaram uma pequena oficina em Joinville, atuando na construção de móveis e utensílios e fazendo reparos em carrocerias de caminhões e cabines. Em 1948, a Nielson fez seu primeiro veículo de transporte coletivo, uma jardineira – ônibus simples feito de madeira. O veículo da Nielson foi uma encomenda da empresa Abílio & Bello Cia Ltda, que fazia a linha Joinville – Guaratuba, em Santa Catarina.

Foi na época do surgimento do empreendimento dos Nielson que o Brasil começava a assistir mais intensamente ao crescimento das cidades e também das relações comerciais entre as diferentes localidades. Tudo isso demandava uma maior oferta de transportes. Assim, muitos empreendedores compravam chassis de caminhão, como da Ford e da GM, e precisavam transformá-los em ônibus para enfrentar as difíceis estradas de terra e verdadeiros atoleiros. Nessa época, a Nielson & Cia Ltda. tinha o comando do patriarca da família, Bruno, e do filho Harold.

Em 1958, um dos marcos para a Nielson foi o projeto de estrutura metálica para os ônibus. No início dos anos 1960, ganhavam as estradas os modelos Diplomata, carroceria de dois níveis que lembravam os Flxibles norte-americanos que, quando foram importados pela Expresso Brasileiro Viação Ltda, eram chamados de Diplomata. A Nielson, então, conquistava definitivamente o mercado.

Nos anos 1980, a Nielson cresce mais, e, no segmento de rodoviário, travava disputa acirrada com a Marcopolo, e no segmento urbanos, a briga era com a CAIO, praticamente de igual para igual.

A linha Diplomata tinha recebido novas versões, e o Urbanuss ganhava atenção dos frotistas. Por uma estratégia de negócios, a Nielson mudou a marca para Busscar. Inicialmente, a marca ficou conhecida como Busscar-Nielson. Surgiram os rodoviários El Buss e Jum Buss e os urbanos da linha Urbanuss.

Em 2002, a Busscar começava a enfrentar dificuldades financeiras. A família Nielson alegava problemas motivados pela variação cambial e também dificuldades de créditos, mas já havia também erros administrativos internos. O BNDES – Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social – chegou a realizar empréstimos para a empresa, que não foram plenamente honrados. A recuperação não foi plena, havendo novamente outro problema financeiro em 2004. A última crise da Busscar começou em 2008, quando a empresa começou a atrasar salários.

Depois de uma dívida que se aproximou dos R$ 2 bilhões, contando juros, impostos e débitos com fornecedores, trabalhadores e bancos, a empresa teve a falência decretada em 27 de setembro de 2012 pelo juiz Maurício Cavalazzi Povoas. A decisão, porém, foi anulada em 27 de novembro de 2013, após recursos judiciais. No entanto, os recursos caíram em 5 de dezembro de 2013. A família Nielson chegou a apresentar um novo pedido de recuperação judicial, mas o juiz Luis Felipe Canever, de Santa Catarina, após negativa por parte dos credores, decretou, no dia 30 de setembro de 2014, nova falência da encarroçadora de ônibus Busscar, que já foi uma das maiores do Brasil.

Os negócios continuam na América Latina com a atuação em parceira de outros grupos, com destaque para as operações na Colômbia. A Busscar Colômbia foi formalizada no ano de 2002, sendo fruto de uma aliança entre a indústria local Carrocerías de Occidente, empresa fundada em 1995, e a Busscar Ônibus do Brasil, fundada pela família Nielson em 17 de setembro de 1946.

Foram várias as tentativas de leilão da Busscar, três somente em 2016. No dia 8 de julho, terminou sem lance o terceiro leilão da empresa.

No final de outubro, foi apresentada uma proposta por um grupo de investidores com o objetivo de retomar as produções em meados de 2017.

Esta publicação foi catalogada na categoria de