HISTÓRIA: Marcopolo comemora 67 anos com homenagens aos funcionários

Por , em 10 de agosto de 2016.

Empresa se diz otimista, apesar da crise brasileira que afeta o setor de veículos pesados.

Ônibus Marcopolo, da Nicola. Modelos enfrentaram os desafios e dificuldades de um Brasil que precisava crescer. Foto: Maicon Igor Barboza.

Ônibus Marcopolo, da Nicola. Modelos enfrentaram os desafios e dificuldades de um Brasil que precisava crescer. Foto: Maicon Igor Barboza.

Foi exatamente num sábado dia 06 de agosto que surgia uma gigante nos transportes por ônibus: a Marcopolo.

A empresa, na verdade, foi criada com a denominação Nicola.

Nicola era a família fundadora da modesta fábrica inaugurada em 06 de agosto de 1949.

Os irmãos Dorval, Doracy e Nelson Nicola haviam montado um simples galpão de 290 metros quadrados na periferia de Caxias do Sul.

Eles vislumbravam o crescimento urbano do Brasil, na época do pós-Segunda Guerra Mundial, que significava um novo alento e uma nova esperança para um planeta arrasado e ressentido de uma das mais sangrentas disputas que havia dividido o mundo em dois.

Com o desenvolvimento das áreas urbanas, aos poucos, o país deixava de ser predominantemente rural. Isso mudava o estilo de vida das pessoas. Se antes elas quase não precisavam se deslocar, pois moravam onde trabalhavam, normalmente nas lavouras, as cidades tinham um cenário diferente.

Havia os centros geradores de emprego e renda, onde ficavam as indústrias e o comércio, e as vilas de trabalhadores, que se tornavam cada vez mais distantes com a expansão do número de habitantes das cidades e a valorização dos terrenos nos centros comercias, industriais e ao lado das linhas de trem.

Os trilhos não tiveram a velocidade e a flexibilidade para acompanhar esse crescimento. Um erro, na verdade, pois muitas metrópoles hoje, na época em que eram apenas cidades em expansão, planejavam o crescimento metroferroviário, se não no mesmo ritmo, ao menos não muito defasado em relação à velocidade do crescimento urbano.

Mas não apenas um erro, uma necessidade também. Não é possível comparar o crescimento de um pais tão grande e com relevos e realidades regionais tão desiguais como o Brasil com nações europeias, por exemplo.

Assim, o ônibus no Brasil não foi só uma opção. Foi a única resposta rápida e disponível. Não havia tempo e nem dinheiro para levar os trilhos para todos os locais. Também não era possível atender com os trilhos regiões de aclives e declives muito acentuados.

Os Nicola perceberam essa forma e velocidade de crescimento do país e não quiseram perder a oportunidade. Eles sabiam que o ônibus ia se desenvolver, mas talvez não imaginavam que seu galpão em Caxias do Sul seria o embrião de uma das maiores produtoras mundiais de ônibus. A Marcopolo, desde a época da Nicola, produziu mais de 200 mil carrocerias de ônibus em todo o mundo.

Os irmãos Nicola se aproveitaram também dos benefícios trazidos à indústria com a maior facilidade de escoamento da produção pela recente criação da BR 116, que, oito anos antes da fundação da encarroçadora, em 1938, portanto, chegava à região de Caxias do Sul.

A ENTRADA DE UM NOVO INVESTIDOR

Ônibus modelo Marcopolo feito pela empresa ainda com a denominação Carrocerias Nicola S.A. Foto: Marcopolo/Ricardo Demetrechen.

Ônibus modelo Marcopolo feito pela empresa ainda com a denominação Carrocerias Nicola S.A. Foto: Marcopolo/Ricardo Demetrechen.

Os Nicola tinham fundado a Marcopolo com outros oito sócios, a maioria de família alemã. Menos de dois anos depois da fundação, os sócios saíram do negócio e voltaram para Novo Hamburgo, no Vale dos Sinos, no Rio Grande do Sul.

Paulo Pedro Bellini, um jovem com 22 anos, mas de muita visão, enxergou na encarroçadora uma oportunidade de crescimento. E a escolha foi acertada.

O jovem precisou da ajuda do pai, Alberto Bellini, para completar o dinheiro que precisava para comprar a parte que era dos alemães: 240 mil cruzeiros, em 1951, o que hoje corresponderia a cerca de R$ 180 mil (valor que nem dá hoje para comprar um micro-ônibus).

Foi um negócio que exigiu visão de futuro, pois, apesar de já ter suas encomendas, a Nicola ainda estava muito longe de se tornar firme no mercado. Na época, havia uma série de oficinas que trabalhavam com madeira e construíam carrocerias de ônibus, ou melhor, jardineiras rústicas encarroçadas sobre chassis de caminhão.

A MÃO AMIGA DA COIRMÃ NA ERA DO AÇO

Ônibus Nicola Série Ouro, em 1961, sendo exportados para Compañia de Omnibus Pando, de Montevidéu, Uruguai. Foto: Marcopolo/Classical Buses.

Ônibus Nicola Série Ouro, em 1961, sendo exportados para Compañia de Omnibus Pando, de Montevidéu, Uruguai. Foto: Marcopolo/Classical Buses.

Até então, a fabricação de carrocerias era praticamente artesanal e, além de exigir muito esforço, técnica e arte, demandava bastante tempo. Encontrava-se de todo o tipo de madeira, mas as mais adequadas e de qualidade superior para resistir à operação dos ônibus, já que não poderia ser como a montagem de um móvel, que não é submetido a solavancos e ação de intempéries, eram madeiras do tipo Angico, Caneca, Açoita–cavalo e Cedro.
No entanto, a madeira para carrocerias de ônibus já era passado em boa parte do mundo. Os ônibus importados por grandes empresas, como Viação Cometa e Expresso Brasileiro, já eram metálicos e ditavam tendências. Quem não seguisse a era do aço ficaria para trás.

A GM, com seu monobloco nos anos 1940, e a Carbrasa, em 1941, teriam sido as primeiras empresas a usar estrutura metálica.

As demais não poderiam perder a concorrência.

A Nicola foi buscar numa empresa concorrente, porém com um fundador humano e com espírito profissional, o conhecimento para atuar de maneira melhor com o aço.

José Massa, fundador da CAIO, abriu as portas da sua empresa para Paulo Pedro Bellini e mostrou como era a produção para os técnicos da Nicola.

A Nicola teve depois de desenvolver seus produtos e suas técnicas, mas a ajuda de Massa foi fundamental.

Tanto é que em 1954, a empresa tinha o nome alterado para Carrocerias Nicola S.A. Manufaturas Metálicas.
Para expandir os negócios e atender a demanda que crescia, a Nicola precisou aumentar o seu parque fabril. Tarefa que não foi fácil.

Bellini decidiu correr o Brasil vendendo a prazo ações da empresa.

Isso contribuiu para a inauguração da Unidade Planalto, também no Rio Grande do Sul, em 1957, que inicialmente tinha 3,1 mil metros quadrados.

Nesse mesmo ano, a indústria automotiva recebia um grande incentivo governamental, o que demonstrava a opção do poder público pela política rodoviarista.

Era criado o GEIA – Grupo Executivo da Indústria Automobilística –, que auxiliava no financiamento, na execução de políticas e no estabelecimento de novos padrões técnicos.

Os pedidos por veículos automotores, acompanhando o maior ritmo de urbanização das cidades, cresciam.

Um ótimo sinal para as fabricantes, mas também um desafio, já que elas tinham de se adaptar para atender a essa demanda maior.

A Nicola começou a negociar com duplicatas para conseguir dinheiro rápido para aumentar a linha de produção, modernizá-la, comprar matéria-prima e contratar mais funcionários.

Com o passar do tempo, parte da família Nicola havia decidido fundar um outro negócio.

Em 1960, os irmãos Doracy Luiz Nicola e Nelson João Nicola criaram uma empresa que reformava carrocerias, começando a fabricar os próprios modelos. Era a Carrocerias Manufaturadas Furcare.

Na Nicola, só tinha ficado Durval Nicola. Mas, em 1967, depois de conversar com Bellini, ele vendeu sua parte e se juntou aos irmãos na Furcare, depois chamada Nimbus e, nos anos 1970, comprada pela Marcopolo.

FIM DA ERA NICOLA

Marcopolo Bertioga. Modelo teve destaque na década de 1970. Foto: Marcos Jeremias.

Marcopolo Bertioga. Modelo teve destaque na década de 1970. Foto: Marcos Jeremias.

Sem nenhum Nicola na empresa, não havia mais sentido permanecer com o nome Carrocerias Nicola. Não só por questões de marketing, mas também jurídicas futuras.

O novo nome da empresa surgiu pelo sucesso de um modelo: era o Marcopolo, apresentado oficialmente no VI Salão do Automóvel.

O sucesso não foi à toa. O modelo apresentava inovações na estrutura e estéticas que chamavam a atenção como maior área envidraçada, janelas inclinadas em ângulo e faróis dianteiros redondos grandes, dois de cada lado.

O produto ganhou mais destaque do que a produtora.

Assim, foi essencial para a definição da marca. O mercado conhecia mais o Marcopolo, aquele da Nicola, do que a própria empresa, depois do lançamento do modelo.

Mas entre a saída do último Nicola da empresa e a definição da marca Marcopolo foram discutidos diversos nomes. A empresa fez uma pesquisa com psicólogos, sociólogos, frotistas e empregados.

Não apenas em relação à fixação da marca, mas o Marcopolo ajudou a divulgar a empresa e os outros produtos, inclusive urbanos.

Foi a partir daí que a encarroçadora engatou um forte ritmo de expansão.

Nos anos 1970, havia adquirido marcas como a Nimbus/Furcare, que havia sido também fundada pelos Nicola, e a Carrocerias Eliziário, comprada pelos Nicola e depois adquirida pela Marcopolo.

A marca também possuía a INVEL, de ônibus de pequeno porte e veículos especiais, como ambulâncias. Guardadas as devidas proporções, era como a Volare nos dias de hoje.

Também nos anos 1970, participou de um dos maiores acontecimentos do setor de transportes: a criação do BRT – Bus Rapid Transit –, o sistema de corredores rápidos e modernos, desenvolvido pelo prefeito Jaime Lerner, de Curitiba, e implantado em sua gestão no ano de 1974.

O sistema consiste numa democratização do espaço público, dando prioridade ao transporte coletivo, que transporta muito mais pessoas em menor área, se comparado com o transporte individual.

Além das canaletas (corredor segregado), novos pontos e informações aos passageiros, Jaime Lerner pensou em um veículo mais confortável, de maior capacidade, acessível e menos poluente, apesar de não serem ainda grandes os apelos pelo meio ambiente e pelo direito de ir e vir dos portadores de limitações físicas.

A Marcopolo desenvolveu o modelo Veneza Expresso, a partir do já consagrado Veneza, porém com várias modificações, como altura do piso em relação ao solo menor, maior aproveitamento do espaço interno com bancos laterais, mais área envidraçada, e o motor Cummins oferecia mais potência e conseguia emitir menos poluentes.

As marcas Eliziário e Nimbus Furcare iam saindo do mercado com o passar do tempo.

Nos anos 1980, a empresa decidiu inovar e criar gerações de produtos.

Em 1983, surgia a Geração IV. Mas por que não geração I, se era a primeira nomenclatura de Geração?

Porque a Marcopolo contava a partir da série de seus “Marcopolos”, que eram I, II e III.

O modelo Marcopolo desapareceria para ficar só sendo marca, que já havia ganhado personalidade, e surgiam modelos como Torino, no segmento de urbano, e Viaggio e Paradiso, no de rodoviários. Nomes bem italianos à la Paulo Bellini.

A Geração V foi lançada em 1992, e era marcada por uma nova estrutura de carrocerias, com perfis tubulares, e não mais abertos em forma de “U” ou cartola. Esta estrutura se assemelhava ao modelo europeu.

Em 2000, era lançada a Geração VI, com linhas mais arredondadas, e na estrutura aperfeiçoando os perfis tubulares e aplicando mais longarinas inteiriças e partes em aço galvanizado, um material leve, mas ao mesmo tempo resistente à corrosão.

Em junho de 2009, mantendo os mesmos nomes nos rodoviários, Viaggio para veículos mais simples e Paradiso para os mais aprimorados, foi colocada no mercado a Geração VII, num momento essencial da indústria.

As renovações previstas nas frotas, o aquecimento da escolhida, o preparativo das empresas para a Copa do Mundo de 2014 e Olimpíadas de 2016 e para a licitação das linhas rodoviárias interestaduais e internacionais pela ANTT, além da crise da maior concorrente do segmento, a Busscar, que teve de interromper a produção por não suportar dívidas trabalhistas, fiscais e com fornecedores, a Geração Sete logo ganhou as principais cidades do país, com veículos em pequenas transportadoras ou gigantes do setor.

OTIMISMO APESAR DA CRISE

Torino 1983 sendo exportado. Hoje, Marcopolo é uma das multinacionais brasileiras. Foto: Marcopolo.

Torino 1983 sendo exportado. Hoje, Marcopolo é uma das multinacionais brasileiras. Foto: Marcopolo.

Em nota, neste ano de 2016, a Marcopolo diz que a criatividade é essencial para enfrentar o atual momento de crise e que, mais uma vez, homenageou os trabalhadores pelo aniversário da empresa:

“Em meio aos grandes desafios que o País enfrenta, a Marcopolo celebra mais um ano de atividade, o seu 67º aniversário. Neste momento delicado para todos os cidadãos brasileiros, a empresa investe na criatividade, comprometimento e dedicação para, junto com as suas tradicionais virtudes de foco nas pessoas, velocidade de resposta e flexibilidade, continuar sua trajetória de superação.

Uma das ações tradicionais em comemoração ao aniversário da empresa é o Dia do Colaborador Marcopolo, que este ano foi celebrado em 5 de agosto. A data é um reconhecimento a todos os profissionais de diferentes funções que fazem parte do quadro da empresa e conta com refeição especial, música e um presente para os colaboradores Marcopolo.

A premiação ‘Honra ao Mérito’ homenageia os colaboradores que completam múltiplos de 5 anos de serviços prestados à empresa e que neste ano atingem 1.226 pessoas. Em sua 31ª edição, o “Honra ao Mérito” tem número recorde de homenageados com 25 anos de empresa – 121 pessoas – os quais participarão de jantar festivo onde receberão um boton de ouro e posteriormente viajarão ao nordeste com acompanhante. O Honra ao Mérito destaca os profissionais que, com o seu trabalho e dedicação, vêm contribuindo para transformar a empresa em uma das líderes mundiais no seu segmento de atuação. Os eventos acontecem nas unidades de Caxias do Sul, Rio de Janeiro, São Paulo e São Mateus.

Nesses 67 anos, a Marcopolo tornou-se referência na produção de ônibus, construindo uma marca fortíssima conhecida em todo o mundo. E para dar continuidade à sua busca por maior competitividade, a empresa está trabalhando num processo de revitalização do SIMPS/SUMAM, sistema que utiliza desde 1986, tendo como base os princípios da Filosofia Lean.

Esses programas ressaltam o grande diferencial da empresa, que é a capacidade de fazer acontecer com pessoas dedicadas, com qualidade, segurança e eficiência”.

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