ESPECIAL: Mercedes-Benz comemora 60 anos querendo “governo melhor”

Por , em 30 de abril de 2016.

Em evento sobre as seis décadas, maior fabricante de veículos comerciais do País faz um balanço da história e apresenta inovações, como caminhão autônomo, o anúncio de vendas locais de picapes e a expectativa de continuar liderando nos segmentos de ônibus.

– 28 de setembro de 1956, quando a primeira planta brasileira da Mercedes-Benz era inaugurada oficialmente, em São Bernardo do Campo, no ABC Paulista, a esperança era grande num “Novo Brasil”.

– 28 de abril de 2016, a Mercedes-Benz realiza, na mesma planta, um evento em comemoração aos 60 anos no País e a esperança volta a ser para um “Novo Brasil”.

No entanto, as realidades das duas épocas são bem diferentes.

Apesar das dificuldades, os anos de 1950 no Brasil revelavam um projeto de desenvolvimento com foco na ampliação da indústria no país. Surgia a política do presidente Juscelino Kubitschek, que incentivou a industrialização brasileira. JK esteve na inauguração da planta da Mercedes-Benz, em São Bernardo do Campo, e em seu discurso foi enfático: “O Brasil acordou!”.

Presidente Juscelino Kubitschek em inauguração da Mercedes-Benz em São Bernardo do Campo, em 1956. Foto: divulgação - PMSCB.

Presidente Juscelino Kubitschek em inauguração da Mercedes-Benz em São Bernardo do Campo, em 1956. Foto: divulgação – PMSCB.

Já em 2016, a busca por um “Novo Brasil” não se dá pelas expectativas de desenvolvimento, mas pela necessidade de mudanças de uma situação política e econômica grave que afeta o setor produtivo, os trabalhadores e, consequentemente , a arrecadação do poder público. Será que o Brasil precisa acordar de novo?

O evento, do qual o Blog Ponto de Ônibus participou nesta quinta-feira, 28 de abril de 2016, mostra que a montadora alemã, que em 60 anos produziu no Brasil mais de 2 milhões 120 mil veículos comerciais e gerou 100 mil diretos e 500 indiretos, continua otimista e apostando no país, no entanto, ciente de que, se a situação não se alterar, a indústria continuará dando passos para trás no volume de produção e muitos trabalhadores poderão perder o emprego.

“Precisamos superar essa crise caseira e ter um governo competente, sem perda de tempo… O governo precisa ser melhor, a economia precisa estar melhor… O Brasil precisa de um governo que seja respeitado pelas pessoas e pelas empresas, só resolvendo a crise política é que resolveremos a crise econômica” – disse, em diferentes ocasiões no evento, o presidente da Mercedes-Benz do Brasil e CEO América Latina, Philipp Schiemer.

O descontentamento não é à toa. A indústria de veículos, em especial de comerciais, que refletem o nível de investimento de outros setores que precisam de ônibus e caminhões para realizar os negócios, registra quedas acumuladas na produção desde 2014. É o que revelam os dados históricos da Anfavea – Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores.

Somente em relação à produção de ônibus, em 2014, a queda foi de 17,9% no segmento, levando em conta todas as marcas. Em 2015, a produção de ônibus teve recuo de 34,7%.

No primeiro trimestre deste ano, a queda de produção de chassis de ônibus soma 43,5%. É como se a indústria caminhasse por mais de uma década para trás em relação ao volume de produção.

A Mercedes-Benz, a exemplo de outras montadoras de ônibus e caminhões, tenta se adequar com medidas como programas de demissões voluntárias, ajuste da jornada de trabalho ao nível de produção, adesão ao PPE – Programa de Proteção ao Emprego –, mas diz que acredita que a fase do país vai passar e mantém os investimentos.

“Os 60 anos de Mercedes-Benz nos ensinaram isso: a superação. O país já passou crises como nos anos de 1970/1980, com alta inflação, e do início dos anos de 1990. São oportunidades que nos fazem pensar em que podemos mudar ou se estamos sendo competitivos” – disse o membro do Conselho de Administração da Daimler e responsável pela Daimler Trucks e Buses, Stefan Buchner.

Para o presidente da Mercedes-Benz do Brasil e CEO América Latina, Philipp Schiemer, é necessária uma política econômica eficiente em relação a juros e inflação.

“Uma Selic de 14,25% e juros nas alturas para o consumidor são insustentáveis. Os juros precisam cair e para isso é necessário controlar a inflação” disse.

Responsável pela divisão de caminhões da Mercedes-Benz, Stefan Buchner diz que a atual situação provoca uma reação em cadeia que prejudica a todos.

“Se o Brasil sofre, o povo sofre e a Mercedes-Benz sofre. Estamos todos na mesma situação. Nós não vamos ficar parados, veremos o que podemos fazer para seguir adiante”.

Não ficar parado é justamente continuar com os investimentos, com lançamentos de novos produtos e tecnologias.

A Mercedes-Benz confirmou nesta quinta-feira que vai manter a estimativa de investimentos de R$ 730 milhões até 2018 em modernização de processos, plantas e desenvolvimento de veículos que se somam aos R$ 2,5 bilhões aplicados no Brasil entre 2010 e 2015. Esses R$ 730 milhões até 2018 se somam, também, aos R$ 600 milhões para a planta de automóveis inaugurada recentemente na cidade de Iracemópolis, no interior de São Paulo.

Outro plano da Mercedes-Benz para o Brasil é colocar o país, literalmente, na rota da condução autônoma de veículos comerciais. No evento, a Mercedes-Benz mostrou a versão de desenvolvimento do caminhão autônomo para o ano de 2025. Os testes ocorrem desde 2013.

E Stefan Buchner revela: O Brasil poderá, também, ter ônibus de condução autônoma.

“Neste caso, o que funciona com caminhão funciona também para o ônibus. No Brasil, há uma grande possibilidade de condução autônoma para ônibus por causa de faixas e principalmente corredores exclusivos, que facilitariam a operação. No entanto, precisamos ver se o governo libera e se os clientes [empresários de ônibus] querem, mas tecnicamente é perfeitamente possível”.

Em 2016, comemorando 60 anos no País, Mercedes-Benz mostra caminhão com condução autônoma, tecnologia que também pode ser implantada nos ônibus brasileiros. Foto: Adamo Bazani.

Em 2016, comemorando 60 anos no País, Mercedes-Benz mostra caminhão com condução autônoma, tecnologia que também pode ser implantada nos ônibus brasileiros. Foto: Adamo Bazani.

No evento, a Mercedes-Benz também anunciou as vendas, no Brasil, de uma picape, desenvolvida em parceria com a Nissan, e que será produzida na Argentina. As vendas devem ocorrer a partir de 2018.

Em relação aos ônibus, a Mercedes-Benz espera continuar liderando nos seguimentos de urbanos e rodoviários. Uma das apostas para a mobilidade urbana são os corredores de alta performance para ônibus, os BRT – Bus Rapid Transit. O superarticulado, ônibus com 23 metros de comprimento e capacidade para cerca de 200 pessoas, continuará sendo o principal produto da marca para essa aplicação. Atualmente, circulam pelo país em torno de mil ônibus desse tipo, com chassis O500 UDA – de piso baixo – e o O500 MDA – indicado para corredores que possuam estações com plataformas no mesmo nível do assoalho dos ônibus.

O chefe mundial da Daimler Buses, Hartmut Schick, diante da crise enfrentada pelo país, aposta no mercado externo, que tem crescido, mas diz também que comemora o aumento da participação da marca no mercado.

“No primeiro trimestre deste ano, nossa participação cresceu mais uma vez, apesar da atual retração do mercado do País. Atingimos 55% de market share, três vezes mais que o obtido pelo segundo colocado, e aumentamos 2,5 pontos percentuais comparado aos 52,5% registrados em todo o ano de 2015”.

NÚMEROS RESPEITÁVEIS E ÍCONES DA MARCA

Realmente, 60 anos de história refletem que já foi percorrida uma estrada muito longa. Já o desenvolvimento de novos modelos e de formas de produção mostra que, se depender da Mercedes, a viagem não terá ponto final. São vários fatos, modelos, veículos que fazem com que, sem nenhuma modéstia, o membro do Conselho de Administração da Daimler e responsável pela Daimler Trucks e Buses diga que “a história da empresa é a uma síntese da história do Brasil”.

Desde 1956, foram produzidos 2.120.000 veículos comerciais no Brasil, sendo que 1.450.000 caminhões e 670 mil ônibus. Além disso, foram feitos no país 2.900.000 motores.

A história dos caminhões brasileiros feitos pela Mercedes-Benz começou em 1956. Era o L-312 chamado de Torpedo por causa do formato do cofre do motor. Já o chassi LP-312, no mesmo ano, recebera a primeira carroceria de ônibus, apesar de ser uma plataforma desenvolvida para caminhões. O posto da direção era avançado e a suspensão traseira foi redimensionada. Foi a partir do modelo que todos os veículos da marca com local de trabalho do motorista avançado seriam identificados pela letra P.

Mas um ônibus “de fato” da marca seria conhecido pelo Brasil apenas em 1958 , ano em que a Mercedes-Benz lançou o Monobloco O-321, uma revolução nos transportes na época.

Modelo O-321 foi o primeiro ônibus monobloco feito pela Mercedes-Benz no Brasil em 1958, um novo conceito na indústria nacional. Foto: Acervo Empresa Moreira/Goiás-Carlos Júnior.

Modelo O-321 foi o primeiro ônibus monobloco feito pela Mercedes-Benz no Brasil em 1958, um novo conceito na indústria nacional. Foto: Acervo Empresa Moreira/Goiás – Carlos Júnior.

Suspensão mais macia, melhor posição das poltronas, nível de ruído baixo e acabamento interno de qualidade superior, tudo isso até era conhecido pelos passageiros do Brasil, só que nos ônibus importados. O O-321 foi o primeiro da série dos monoblocos, que terminou em 1996, com o O-400.

Parte do mercado dizia que os monoblocos eram bons, mas tinham manutenção e custo de aquisição mais altos. Hoje, muitos frotistas dizem ter saudade desses ônibus.

Dos monoblocos às atuais gerações, ônibus incorporam desenvolvimentos ao longo do tempo. Foto: Adamo Bazani.

Dos monoblocos às atuais gerações, ônibus incorporam desenvolvimentos ao longo do tempo. Foto: Adamo Bazani.

Um dos destaques da história foi o Monobloco O-370, lançado em 1984. Além de um design externo realmente inovador em relação aos outros monoblocos, com linhas mais retas e sóbrias, o veículo tinha inovações na parte de dentro também. Algumas versões tinham porta-pacotes fechados como das aeronaves. As poltronas também foram reformuladas em relação aos antecessores O-364 e O- 365 e ficaram mais confortáveis. Mas foi na parte mecânica que recebeu expressivas alterações, como, por exemplo, o turbo pós-resfriado.

Dos monoblocos às atuais gerações, ônibus incorporam desenvolvimentos ao longo do tempo. Foto: Adamo Bazani.

Dos monoblocos às atuais gerações, ônibus incorporam desenvolvimentos ao longo do tempo. Foto: Adamo Bazani.

Inicialmente, foi lançada a versão rodoviária O-370RS, com motor O M 355/6A turbo de 292 cavalos, e O-370RSD, com motor OM 355L/6 LA turbo pós-resfriado com 326 cavalos de potência e três eixos. Atendendo às exigências do mercado, em relação a serviços de fretamento e distâncias menores, para minimizar os custos operacionais, é lançada a versão O-370R, motor OM o 355 5/A, com 238 cavalos.

Dos monoblocos às atuais gerações, ônibus incorporam desenvolvimentos ao longo do tempo. Foto: Adamo Bazani.

Dos monoblocos às atuais gerações, ônibus incorporam desenvolvimentos ao longo do tempo. Foto: Adamo Bazani.

Mas, no segmento de ônibus, não foram apenas os monoblocos que fizeram sucesso.

Da Mercedes-Benz, um dos modelos com maior venda foi o chassi LPO-1113. De acordo com a marca, foram comercializados, em todo o Brasil, em torno de 52 mil unidades, além, claro, das que foram exportadas. Robustez era a palavra de ordem do chassi com motor dianteiro. Provavelmente, quem tem 25 anos de idade ou mais já andou pelo menos uma vez na vida em um ônibus 1113, que recebia carrocerias de várias marcas. Flexibilidade era outra palavra de ordem do 1113.

Ônibus LPO-1113 teve mais de 52 mil unidades vendidas no país. Foto: divulgação/Mercedes-Benz.

Ônibus LPO-1113 teve mais de 52 mil unidades vendidas no país. Foto: divulgação/Mercedes-Benz.

No segmento de caminhões, a Mercedes destacou o caminhão 1113 e os 608D e 710, de pequeno porte.

Caminhão 1113 foi um dos mais preferidos nas estradas ao longo da história. Foto: divulgação/Mercedes-Benz.

Caminhão 1113 foi um dos mais preferidos nas estradas ao longo da história. Foto: divulgação/Mercedes-Benz.

Toda esta história explica números atuais.

Hoje, de cada 10 caminhões que circulam no Brasil, 4 são Mercedes-Benz. E de cada 10 ônibus, 6 levam a marca da estrela de três pontas. São 207 versões no portfólio de caminhões, 90 na família de ônibus, 65 versões de comerciais leves.

Assim, a Mercedes-Benz passa a seguinte mensagem no evento: a situação hoje não está nada fácil para o País, e a melhoria não deve vir no curto prazo, para os próximos meses. Mas a grandiosidade de uma história está na luta, na superação. Os números expressivos na história são importantes, mas são apenas reflexos do engajamento humano.

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