Assaí: Do ouro branco ao esquecimento no norte do Paraná

Por , em 14 de fevereiro de 2011.

Cidade paranaense famosa pela colonização japonesa viveu em meados dos anos 1940 seu tempo áureo na agricultura e nos transportes. Da riqueza do algodão surgiu um dos empreendimentos mais conhecidos entre os paranaenses: a Viação Ouro Branco.

Tadeu Carnevalli – Redação e fotos atuais

Igreja Matriz de Assaí, localizada na Avenida Rio de Janeiro, principal via da cidade.

Igreja Matriz de Assaí, localizada na Avenida Rio de Janeiro, principal via da cidade.

Para quem viaja pelo norte no Paraná, na rodovia BR369, é inevitável não reparar as placas indicando as saídas para esta cidade quando se cruza o trecho que atravessa a cidade de Jataizinho, às margens da rodovia federal. O nome causa estranheza, faz confusão com o nome da fruta homófona, o açaí. Apesar de as placas indicarem apenas mais uma cidade, como tantas outras em que a população sequer chega aos vinte mil habitantes, Assaí possui uma história peculiar na região. Desde a colonização, a cidade se destacou pela prosperidade agrícola do Café e do algodão, graças à habilidade trazida pelo povo japonês para o manuseio da terra. Em seu auge, a cidade viu um incrível aumento populacional e, com ele, o surgimento de uma das mais tradicionais empresas de ônibus do estado do Paraná, a Viação Ouro Branco.
Tudo começou nas terras de São Jerônimo da Serra, município pioneiro do norte do Paraná. A BRATAC, Sociedade Colonizadora do Brasil Ltda, adquiriu cerca de 13.600 alqueires correspondentes à fazenda Três Barras, contando com apoio estatal e incentivo do capital japonês para financiamento das lavouras e compra da produção. Constituída por capital misto, diversos acionistas da BRATAC eram contribuintes de províncias japonesas que buscavam ser recrutados para a colonização de terras no Brasil, que se dava de forma planejada, em que os colonos tornavam-se colonos-proprietários de terras dentro de núcleos bem definidos.
Assailand foi a primeira denominação dada ao conjunto de terras colonizadas pelos imigrantes nipônicos. De origem oriental, Asahi significa “sol nascente” e land se traduz como “terra”, ou seja, terra do sol nascente. Simplificado posteriormente, restou apenas “Assaí”, nome que até hoje representa o município.
Em 1938 o então conjunto de terras era elevado à categoria de distrito do município de São Jerônimo da Serra, desmembrando-se também do antigo distrito de Jataí, pertencente ao mesmo município. A emancipação do município de Assaí se deu no ano de 1944, graças ao seu rápido crescimento econômico e aumento populacional. Entre os anos de 1930 e 1940, Assaí atingiu o seu ápice populacional: não há números oficiais da época, porém estima-se que a cidade chegou a ter aproximadamente cem mil habitantes, atraídos pelo trabalho nas culturas de algodão e café.
Neste momento de prosperidade muitas oportunidades surgiram. E assim aconteceu para o Sr. Vergílio Spuri, no ano de 1945. Proprietário de um caminhão e morador da cidade de Cornélio Procópio, Vergílio transportava toras de madeira no trecho de 50km entre Cornélio Procópio e Assaí. Com as escassas alternativas de transporte que ligavam estas duas cidades, Vergílio era procurado por muitos passageiros que lhe pediam uma carona durante uma de suas viagens rotineiras para o transporte de madeira. Observando a crescente demanda de passageiros, em conjunto com um sócio, o caminhoneiro comprou uma Jardineira Chevrolet usada, ano 1939, fundando assim a empresa Empreza Rodoviária Vergilio & Hase Ltda, a qual estabeleceu sua sede no município fundado no ano anterior, a cidade de Assaí.
O sucesso do negócio foi tamanho que, após trabalhar concomitantemente com o transporte de madeiras por alguns anos, Vergílio decidiu abandonar o transporte de cargas para se dedicar exclusivamente à empresa de transporte de passageiros.

Jardineira da Empreza Rodoviária Vergilio & Hase. Foto: Acervo Viação Ouro Branco

Jardineira da Empreza Rodoviária Vergilio & Hase. Foto: Acervo Viação Ouro Branco

No dia 5 de julho de 1947 a empresa então tomara o nome que marcaria a memória dos norte-paranaenses. A então empresa Vergilio & Hase tornava-se a Empreza Rodoviária Ouro Branco Ltda, sempre ostentando em seus ônibus o nome de sua cidade sede: Assaí. Em seus primeiros anos de operação, a Ouro Branco manteve sua atuação em linhas entre as cidades de Assaí, Cornélio Procópio, São Jerônimo da Serra e Londrina. Em meados da década de 1970, a empresa já havia ampliado sua área de atendimento, realizando linhas nas cidades de Uraí, Rancho Alegre, Nova Fátima, Nova América da Colina, São Sebastião da Amoreira, Santa Cecília do Pavão e Nova Santa Bárbara.

Empreza Rodoviária Ouro Branco: o surgimento de uma marca presente na memória da população norte-paranaense.

Empreza Rodoviária Ouro Branco: o surgimento de uma marca presente na memória da população norte-paranaense. Foto: Acervo Ouro Branco

Durante os anos que se passaram, a empresa foi ampliando suas operações e chegou a adquirir outras empresas menores que operavam na região. As mudanças administrativas também foram muitas, o que fez com que a empresa tivesse muitos acionistas, diversos quadros de diretores e diferentes localizações de sua sede. Acompanhando a retração econômica que viveu a cidade de Assaí, em razão do declínio das culturas de café e algodão, a empresa buscou, paulatinamente, transferir suas atividades para a cidade de Londrina, cidade com maior densidade populacional. No ano de 1979, a Viação Ouro Branco era incorporada à Viação Garcia, maior e mais tradicional empresa da região norte do Paraná.
Até o início dos anos 2000, a Viação Ouro Branco manteve-se relativamente independente da Viação Garcia. Apesar de compartilharem muitos itens da mesma estrutura, a Ouro Branco e a Garcia possuíam sedes e administrações separadas. Localizada no número 600 da Rua Jaguaribe, a garagem da cidade de Londrina era tida com uma das melhores instalações de garagens na cidade. Com a política de unificação administrativa e operacional, todas as operações da antiga garagem da Ouro Branco foram transferidas para a mesma garagem da Viação Garcia, na Avenida Celso Garcia Cid. Com isso, a antiga garagem foi fechada, tendo sua utilização restrita ao abrigo de ônibus à venda do grupo Garcia. Em janeiro de 2009, os ônibus que hoje ocupam o Espaço Memória da Viação Garcia eram guardados na antiga garagem da Ouro Branco.

Ônibus do museu da Viação Garcia na garagem desativada da Viação Ouro Branco em Londrina. Foto em 2009.

Ônibus do museu da Viação Garcia na garagem desativada da Viação Ouro Branco em Londrina. Foto em 2009.

Assaí Hoje

A equipe do Ônibus Brasil visitou a cidade de Assaí para acabar com uma grande curiosidade. Mais de trinta anos após a mudança da Viação Ouro Branco, qual seria o vínculo da empresa com sua primeira sede? Quais vestígios a administração pioneira teria deixado na cidade?
Chegando na cidade pelo acesso da PR-090, sentido BR369 – Assaí, somos recebidos por um belo portal em estilo oriental, o que já nos lembra que estamos entrando em uma cidade colonizada por japoneses. O acesso à cidade já se dá pela avenida principal, a Avenida Rio de Janeiro, aquela que concentra os principais estabelecimentos comerciais, a rede bancária e a igreja matriz. Comparada a cidades de mesmo número de habitantes na região, Assaí surpreende por possuir um comércio diversificado e diversas agências bancárias. Enquanto a maioria das pequenas cidades apenas tem agências do Banco do Brasil e Caixa Econômica Federal, encontramos por lá agências do Bradesco, HSBC, Caixa, Itaú e Banco do Brasil. Essa presença pode ser explicada facilmente. Além da agricultura forte, como há em praticamente todas as pequenas cidades do interior do Paraná, Assaí deve parte de seu desenvolvimento aos trabalhadores que deixam a cidade em busca de trabalho no Japão, enviando mensalmente parte de seus ganhos à família no Brasil.

Avenida Rio de Janeiro reúne os principais estabelecimentos comerciais e a rede bancária.

Avenida Rio de Janeiro reúne os principais estabelecimentos comerciais e a rede bancária.

Se por um lado esta forma de desenvolvimento trouxe muita prosperidade à cidade durante a década de 1990 até meados dos anos 2000, hoje se observa um certo declínio dos investimentos, tanto na forma da manutenção dos bens públicos como na manutenção de bens privados. Com a crise de empregos no Japão, muitos dekasseguis – trabalhadores que deixam sua terra natal em busca de trabalho em outro país – voltaram para o Brasil para viver com menores rendimentos ou tiveram que se sujeitar a empregos com salários menores no Japão. Conseqüentemente, as famílias que tiravam proveito dos ganhos de seus familiares fora do Brasil tiveram sua renda abalada, o que acabou interferindo em toda a economia da cidade. Segundo entrevista do prefeito Michel Angelo Bomtempo ao G1, Assaí já foi a décima sétima maior arrecadadora de ICMS do estado do Paraná. No entanto, hoje, a cidade sequer aparece na classificação de maiores arrecadações. No ano de 2009, a cidade sofreu com uma diminuição de 20% da arrecadação do ICMS, imposto sobre a circulação de mercadorias e serviços.
A falta de oportunidades também se reflete no decremento da densidade populacional. A cidade que já abrigou muitos trabalhadores das safras de algodão e café hoje possui agricultura altamente mecanizada. Não restou opção a muitos moradores, principalmente aqueles mais jovens, a não ser a mudança de cidade. O principal destino foi Londrina, a grande cidade mais próxima, em que há melhores oportunidades de emprego, educação e saúde.

Assaí, o Ouro Branco e a Ouro Branco

Assim como o algodão, o ouro branco que trouxe fama e riqueza à cidade, percebe-se que a Ouro Branco, empresa de ônibus criada graças ao desenvolvimento trazido pelo cultivo da fibra que lhe deu o nome, também não se faz mais tão imponente no município. A empresa que ajudou a levar o desenvolvimento até Assaí sequer possui garagem na cidade, aproveitando o espaço livre na ampla e pouco movimentada rodoviária para guardar seus ônibus metropolitanos que circulam durante os dias. A linha rodoviária mais famosa, Assaí – São Paulo, a única linha interestadual que atende o município e carrega seu nome no itinerário, é atendida pela garagem da Viação Garcia de Cornélio Procópio, local em que ficam abrigados os ônibus que durante a noite realizam esta viagem.

Ônibus metropolitanos da Viação Ouro Branco repousam nas plataformas do terminal rodoviário de Assaí. Empresa não possui mais garagem na cidade em que foi fundada.

Ônibus metropolitanos da Viação Ouro Branco repousam nas plataformas do terminal rodoviário de Assaí. Empresa não possui mais garagem na cidade em que foi fundada.

A integração com a capital do estado se dá pela linha Cornélio Procópio – Curitiba, que tem como primeira parada a cidade de Assaí. Após sair da BR369, esta linha percorre a rodovia PR090 para atender a cidade de Assaí e, em seguida, segue viagem pela mesma rodovia, conhecida como Rodovia do Cerne, cuja importância declinou juntamente com as pequenas cidades das regiões por ela interligadas.
Não há como não ficar um pouco triste ao visitar Assaí. Percebe-se que a cidade já teve o seu auge e hoje se esforça para se reestruturar, buscando novas formas de gerar emprego e renda para o seu povo, livre da dependência financeira dos dekassegui. Desde a praça principal até o terminal rodoviário, percebe-se uma certa degradação dos espaços que aparentemente já foram mais bem cuidados. Conversando com os populares, comprovamos essa suposição.

Arborizada praça central ao lado da igreja matriz da cidade.

Arborizada praça central ao lado da igreja matriz da cidade.

Entrada e estacionamento do terminal rodoviário de Assaí.

Entrada e estacionamento do terminal rodoviário de Assaí.

O terminal rodoviário de Assaí está situado ao lado de um amplo e arborizado parque natural, com trilhas para caminhada e um belo lago. Embora a beleza da natureza impressione, após os primeiros passos adentro do bosque já encontramos pessoas alcoolizadas. Melhor voltar para evitar surpresas desagradáveis. A construção do terminal rodoviário, ao lado do Parque Ikeda, mostra que a cidade vislumbrou no passado um futuro com desenvolvimento. Construído na década de 1940, o prédio que abriga o terminal ainda hoje é superdimensionado para o movimento de ônibus e passageiros. A conservação do interior do prédio deixa muito a desejar. Exceto pelo guichê de venda de passagens da Viação Ouro Branco, em perfeito estado, dentro do prédio há vidraças quebradas, pedaços do reboco se soltando e até os restos da alvenaria do que, no passado, já foi uma lanchonete. Nos banheiros, a situação se repete. Apesar de mantidos limpos para o uso, percebe-se que há muito tempo já deveriam ter sido reformados para melhor atender os passageiros. Resumindo em uma palavra, o interior da rodoviária é deprimente. Aguardar por um ônibus durante tarde da noite em um ambiente assim deve ser, no mínimo, assustador.

Portal do Parque Ikeda, ao lado do terminal rodoviário de Assaí.

Portal do Parque Ikeda, ao lado do terminal rodoviário de Assaí.

Parque Ikeda: Lago e pistas para caminhada.

Parque Ikeda: Lago e pistas para caminhada.

Interior da rodoviária de Assaí: área de espera encontra-se consideravelmente degradada.

Interior da rodoviária de Assaí: área de espera encontra-se consideravelmente degradada.

Nos banheiros também falta manutenção...

Nos banheiros também falta manutenção...

A emoção do reencontro

Para os assaienses pode parecer uma cena habitual, mas na condição de apreciador das empresas desbravadoras do interior do Paraná, nenhuma cena seria mais emocionante do que presenciar, sessenta anos depois, a manutenção de um elo constante de ligação entre uma empresa tradicional e suas origens.
Independentemente das adversidades econômicas e administrativas, que afetaram tanto a cidade como a empresa, o vínculo ainda permanece. A Viação Ouro Branco, hoje pertencente ao grupo Garcia, é a única empresa a atender a cidade de Assaí com suas linhas regulares. Na alegria e na tristeza, na riqueza e na pobreza, são mais de sessenta anos de fidelidade entre a empresa e o povo de suas origens.

Ônibus da Viação Ouro Branco passa pela rodoviária de Assaí: um encontro que se repete há mais de sessenta anos.

Ônibus da Viação Ouro Branco passa pela rodoviária de Assaí: um encontro que se repete há mais de sessenta anos.