Viação São Luiz – Interbus: de volta à tradição

Empresa que era gerida por um empreendedor tradicional volta às mãos de uma das famílias pioneiras nos transportes do ABC Paulista após negociação que mexeu com o setor de transportes

ADAMO BAZANI – CBN

Ônibus Viação São Luiz - Acervo: William de Queiróz

Ônibus Viação São Luiz - Acervo: William de Queiróz

Apesar de emancipação política das cidades que hoje formam o ABC Paulista, que até os anos de 1940 eram todas distritos de São Bernardo do Campo e depois Santo André, todos os municípios sempre foram ligados.
Na verdade, divisão mesmo há a política e administrativa, já que uma cidade é continuação da outra e hoje os sete municípios da região são interdependentes, como sempre foram.
Com o crescimento populacional do ABC Paulista e a modernização das atividades econômicas, devido a intensificação do processo de industrialização, em especial do setor automotivo, a necessidade de comunicação entre as cidades e Capital Paulista, que já era grande, se tornou irrevogável.
Apenas o trem não dava conta da demanda, não por sua capacidade, mas porque os bairros cresciam para muito longe da linha férrea. Assim, era necessário ligar as cidades da região por outros caminhos além do trem, e também fazer uma espécie de complemento, para não dizer concorrência com a linha férrea.
Várias empresas de ônibus, e claro, seus empreendedores se propuseram a este desafio. Desafio de operar ônibus rústicos e em caminhos nem sempre fáceis de serem percorridos. Apesar da industrialização que crescia e da urbanização, ainda eram comuns até os anos de 1970 bairros sem nenhum tipo de pavimentação.
Uma destas empresas foi a Viação São Luiz, fundada oficialmente no início dos anos de 1960, e em 1999, transformada em Interbus – Transporte Urbano e Interurbano Ltda.
Em entrevista dada a este espaço no ano de 2008, o empresário Sebastião Passarelli, um dos mais tradicionais do ABC Paulista, contou que comprou a tímida Viação São Luiz em 1961. É a data de sua nova constituição, de acordo com a Junta Comercial de São Paulo: 28 de março de 1961.
Tímida pois havia apenas uma ligação entre a região da Vila Industrial, na Capital Paulista, até Santo André, passando pela cidade de São Caetano do Sul.
Mas como a região foi crescendo em todos os aspectos, a Viação São Luiz também se desenvolveu e nos primeiros anos de administração de Sebastião Passarelli, a empresa tinha já aumentado o número de ligações.
Mas nos anos de 1980, a inflação corria os ganhos de todo mundo, principalmente da classe trabalhadora, a principal cliente das empresas de ônibus. Os custos aumentavam, mas as tarifas não podiam acompanhar o mesmo ritmo. Passarelli afirmou que o ano mais difícil que se lembra foi em 1982.
Vários empresários tradicionais da região tiveram de vender suas companhias ou se associarem a empreendedores economicamente mais fortes.
Entrava na região do ABC Paulista o chamado grupo dos mineiros: empresários da região de Minas Gerais, que tinham como tática comprar ou se associar a empresas com dificuldades financeiras, que eram mais baratas, e reestruturá-las.
Esse grupo foi liderado na região por Constantino de Oliveira, Baltazar José de Sousa e Ronan Maria Pinto que vinham com uma nova visão empresarial e um capital maior para investir.
Na edição de 2008, comemorativa dos 50 anos da AETC – ABC, Associação das Empresas de Transportes Coletivos do ABC, fundada em 1958, uma revista da entidade revela, segundo a perspectiva dos empresários como foi a chegada destes mineiros.
Terezinha Fernandes Soares Pinto revelou à revista da entidade, que veio com o marido, mineiro, Ronan Maria Pinto, em 1984 para Santo André, justamente para administrar a Viação São Luiz Ltda e a Empresa Auto Ônibus Circular Humaitá, compradas pelo marido.
Ela, Ronan e os filhos, Danilo, na época com 7 anos, e Lidiane, com 4, vieram do Rio de Janeiro. Também mineira, Terezinha declarou ter estranhado a temperatura bem mais amena no ABC Paulista que no Rio de Janeiro.
Nos anos de 1990, a empresa deixou as tradicionais cores verde e branca para adotar um padrão do grupo de empresários: lataria branca com retângulos inclinados nas cores vermelha, azul e amarela. A Expresso Metropolitano de São Vicente, no Litoral Paulista, adotava praticamente a mesma pintura, assim como a Santa Rita, de Santo André.
A Junta Comercial de São Paulo revela que no início dos anos de 1990 a presença dos mineiros e de empresas deles era marcante na Viação São Luiz.
Faziam parte dos sócios diretores:
- Baltazar José da Silva
- Constantino de Oliveira
- Edison Soares Fernandes
- José Gonçalves de Lima Neto
- José Ricardo Caixeta
- Ronan Maria Pinto
- Tarcísio Nunes Constantino/
- Viação Barão de Mauá.

Em 1996, eram admitidos na sociedade da Viação São Luiz formalmente Tereziha Fernandes Soares Pinto, mulher de Ronan Maria Pinto, e outras empresas dele, como Viação Curuçá, de Santo André, e Viação Cidade do Sol, de Indaiatuba, no Interior de São Paulo.
A Viação São Luiz, de acordo com antigos funcionários da empresa, começou a acumular dívidas trabalhistas e fiscais, direitos e tributos não pagos pelos proprietários.
Para renovar permissão de operação de linhas intermunicipais gerenciadas pela EMTU – Empresa Metropolitana de Transportes Urbanos -, a empresa não poderia ter este tipo de débito.
Então foi feita uma estratégia empresaria por parte dos controladores da Viação São Luiz.
Foi realizada uma cisão da empresa, registrada em 06 de abril de 1999, com transferência de patrimônio para a Interbus Transporte Urbano e Interurbano Ltda.
Com praticamente os mesmos donos, porém com nome diferente, as linhas da Viação São Luiz começaram a ser operadas a partir desta época pela Interbus.

Ônibus Interbus - Foto: Adamo Bazani

Ônibus Interbus - Foto: Adamo Bazani

A Interbus já nasceu no ABC Paulista com a pintura padronizada da EMTU para linhas intermunicipais.
A Viação São Luiz não deixou de existir oficialmente. Todos os problemas judiciais e financeiros eram assumidos pela entidade jurídica Viação São Luiz Ltda.
Em 2001, a 4ª Vara Cível de Santo André havia determinado o arresto de bens da empresa junto com a Empresa Auto ônibus Circular Humaitá e Expresso Nova Santo André.
No ano de 2005, enquanto a Interbus operava a pleno vapor nas cidades de Santo André, São Caetano do Sul e parte da zona Leste de São Paulo, a Viação São Luiz teve a sede social transferida para a cidade de Indaiatuba.
Parte da história do assassinato e suposto esquema de extorsão de dinheiro envolvendo empresários de ônibus na administração do prefeito de Santo André, Celso Daniel, também pode ser verificada pela memória da Viação São Luiz.
Em sua ficha cadastral na Receita do Estado de São Paulo, consta na sessão de 25/02/2008, o bloqueio de bens na ordem de R$ 5 milhões 316 mil 805, por determinação da justiça em Santo André, de Sérgio Gomes da Silva (o Sombra), Klinger Luiz de Oliveira (que foi secretário de Celso Daniel), Ronan Maria Pinto, Irineu Nicolino, Humberto Tarciso de Castro, Luiz Marcondes de Freitas Júnior e Projeção Engenharia Paulista de Obras.
A Interbus, verdadeira Viação São Luiz na prática, possui 62 ônibus e transporta, em média, 724 mil passageiros por mês, de acordo com a AETC – ABC.
A empresa deve ter um novo rumo agora, voltando para o controle não do antigo proprietário, mas de uma família tradicional do ABC Paulista, que não só aproveitou as crises na região, mas que cresceu junto com o que seria o ABC, enfrentou e sobreviveu a estas crises, ainda crescendo.
Em 30 de dezembro, a Intebus foi comprada, junto com a Empresa Auto Ônibus Circular Humaitá, pela família Setti & Braga, do Grupo da Auto Viação ABC.
A família começou a operar os transportes em 1910, ligando a estação de São Bernardo do Campo (hoje a estação de trens da CPTM, no centro de Santo André) a Vila de São Bernardo (atual região central de São Bernardo do Campo) antes mesmo da existência dos ônibus. Desde esta época a família permanece nos transportes, mas, sem desprezar a estrutura tradicional se modernizou, tanto nas operações, como na administração, e também diversificou os ramos de atuação.

Adamo Bazani.