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O Papa é Pop e ele andou de busão

Nielson Diplomata Scania usado pelo Papa João Paulo II

Nielson Diplomata Scania usado pelo Papa João Paulo II

Fato pitoresco no Paraná mostra mais uma página interessante da história dos transportes no Brasil. No Paraná, o pontífice dispensou o Papa Móvel e quis andar de ônibus
Adamo Bazani

A história dos transportes no Brasil é formada por vários fatos: o desenvolvimento econômico que os ônibus levavam até os bairros de diversas cidades, cenas de superação de motoristas, empresários e passageiros e até mesmo episódios pitorescos.
Essa história, levantada pelo Blog junto a Viação Garcia, do Paraná é inusitada e marcou, na época, o noticiário do País.
O ano era 1980. No contexto econômico, o Brasil entrava numa profunda fase de inflação, que desvalorizava os ganhos dos trabalhadores. Na política, o Regime Militar ainda estava em vigor, mas a luta pela redemocratização ganhava força. Greves marcaram vários centros urbanos, como o ABC Paulista. Nos esportes, o Brasil não havia conquistado muitas vitórias, pelo menos em Copa. Ainda víamos com inveja a vitória dos hermanos argentinos no mundial de 1978.
Mas 1980 foi marcado também pela primeira visita de um Papa ao País. João Paulo II, com apenas dois anos de pontificado, fez uma grande viagem pelo Brasil. Iniciando por Brasília, em 30 de julho, o líder da Igreja Católica, ficou no País até o dia 11 de junho. Passou por Belo Horizonte (MG), Rio de Janeiro (RJ), São Paulo (SP), Aparecida (SP), Porto Alegre (RS), Curitiba (PR), Manaus (AM), Recife (PE), Salvador (BA), Belém do Pará (PA), Teresina (PI) e Fortaleza (CE).
Nossa história é do Paraná e envolve o sumo pontífice e uma das mais tradicionais empresas do Estado, Viação Garcia.
Segundo relatos de Guilherme Garcia Cid, neto de Celso Garcia Cid, um dos fundadores da empresa, a Viação foi escolhida para transportar a comitiva do Papa no Estado. Milhares de fiéis também fretaram os ônibus da empresa.
Mas o que ninguém imaginava é que João Paulo II quisesse dar uma voltinha de ônibus.
De acordo com a empresa, o Papa Móvel e toda uma equipe de carros de apoio de segurança estavam prontos para levar o religioso do Centro Cívico até o Aeroporto Affonso Pena, em Curitiba. A visita de João Paulo II mobilizou mais de 4,5 milhões de católicos que foram às ruas.
De última hora, no entanto, João Paulo rompeu com todo protocolo e foi em meio aos fiéis paranaenses. Repentinamente, ele viu um Diplomata Scania motor B 111, entrou no veículo e se sentou bem ao lado do motorista. A porta deste modelo ficava atrás da roda dianteira e havia um banco que ficava paralelo ao posto do condutor. Por opção do Papa, a viagem até o aeroporto foi feita no Scania, que já tinha 3 anos de uso.
A escolha do Papa, além de mostrar o carisma e popularidade que tinha João Paulo Segundo, levou os fiéis a verdadeira euforia.

Ônibus que transportou o Papa hoje é conservado pela Viação Garcia

Ônibus que transportou o Papa hoje é conservado pela Viação Garcia

Segundo relatos de Guilherme, funcionários antigos da empresa contam que o ônibus, após o feito de João Paulo II, era disputado por fiéis e curiosos, nas linhas em que operava. “Todos queriam dar uma volta no ônibus do Papa, como era conhecido”. O ônibus, na época, ficou mais popular que muitos artistas e políticos.
Atualmente, a Viação Garcia mantém o Espaço de Memória Garcia. No local, há mais de 5 mil peças históricas, entre fotos, trajes completos de motoristas, passagens, documentos e alguns veículos. Entre os ônibus preservados está o velho Nielson Diplomata Scania Motor B 111, ônibus que representava uma evolução para a época, início dos anos 80, pois contava com motor mais potente que os veículos convencionais e suspensão a ar, muito útil em

Antigos ônibus que fizeram parte da frota da empresa hoje são conservados no Espaço Memória

Antigos ônibus que fizeram parte da frota da empresa hoje são conservados no Espaço Memória

estradas difíceis e viagens de longa distância.
Muitos ônibus ganhavam apelidos dos funcionários e usuários. Como a Catita, ainda preservada pela empresa.
A jardineira é de 1934, a primeira comprada por Celso Cid Garcia. Na verdade, ela era um caminhão Ford TT, que foi adquirido pelo espanhol por três contos de réis. O anúncio no jornal era claro: “Não aceitamos devolução e reclamações”.
Coube ao mecânico polonês José Ziober transformar o caminhão em ônibus. O trabalho foi duro, mas deu certo.
A história da Viação Garcia está intimamente ligada ao desenvolvimento da cidade onde ela foi fundada, Londrina. Primeiro porque a empresa tem a mesma idade do município.

A Catita, em exposição no Espaço Memória mantido pela Viação Garcia

A "Catita", em exposição no Espaço Memória mantido pela Viação Garcia

Na época, imigrantes alemães e poloneses começaram a se instalar na região de Londrina. Coube ao mecânico alemão Mathias Hein gerenciar os transportes da localidade, num contrato com a Companhia de Terras Norte do Paraná, que loteou a área correspondente a Londrina.
Em 1932, a Companhia entrega a concessão completa do serviço a Mathias, que procura um sócio. Na época, entre camponeses, havia poucos habilitados em direção e mecânica. Foi aí que surgiu o espanhol Celso Cid Garcia. Foi fundada a Companhia Rodoviária Heim & Garcia e coube a Celso comprar o novo veículo da empresa, o velho caminhão transformado em jardineira da Ford. Em 1937, a sociedade foi desfeita por desinteresse de Mathias no serviço. Celso Garcia publica num jornal que procuraria um sócio. Aparece outro espanhol, José Garcia Villar,. Em primeiro de fevereiro de 1938 começa a operar a empresa rodoviária Garcia & Garcia.
As linhas locais da empresa começaram a se expandir e a Garcia tornara-se uma empresa de serviço

Fachada do Espaço Memória, na matriz da Viação Garcia, na cidade de Londrina - PR. O galpão que reúne as relíquias do passado da empresa reproduz a fachada original da oficina do mecânico José Ziober, onde, em 1934, um caminhão Ford TT foi transformado na Catita, a primeira jardineira da empresa.

Fachada do Espaço Memória, na matriz da Viação Garcia, na cidade de Londrina - PR. O galpão que reúne as relíquias do passado da empresa reproduz a fachada original da oficina do mecânico José Ziober, onde, em 1934, um caminhão Ford TT foi transformado na "Catita", a primeira jardineira da empresa.

interestadual com o desenvolvimento industrial do Sul e Sudeste do Pais.
O neto do fundador Celso Garcia Cid, Guilherme Garcia Cid, não se esquece das dificuldades relatadas pelo avô em superar estradas de terra e de ter de, durante o dia dirigir os ônibus, e à noite consertá-los, já que por causa das más condições viárias dos anos 30 e 40, os veículos era danificados quase todos os dias.
“Até transportarmos o Papa, rodamos muitos quilômetros, amassamos muito barro e contribuímos com o desenvolvimento de Londrina e região. Hoje, preservar o ônibus usado pelo sumo pontífice é um orgulho para toda a empresa” – relata.
A história do Papa que andou de ônibus é mais uma página interessante da história dos transportes brasileiros pois mostra como os ônibus estão inseridos nos principais acontecimentos de uma Nação, seja transportando por dia progresso através de milhões de passageiros anônimos, seja por levar celebridades e estar presente em eventos de magnitude.
Na Viação Garcia, na época, ficou a piada: “Você que quer ter um carro e mão agüenta a rotina dos transportes, não reclame, até o Papa andou de ônibus no Brasil”.

Adamo Bazani, busólogo, repórter da CBN, que está muito longe de ser um papa, mas que também não pode ver um ônibus de porta aberta que logo quer entrar.

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  1. Thiago souza da silva
    14, janeiro, 2010 em 17:39 | #1

    Que scania legal parabens Adamo.

  2. Marcos Katsuragi
    17, janeiro, 2010 em 22:24 | #2

    Se não me engano, até a poltrona foi preservada, correto?

    abraço

  3. 4, março, 2010 em 11:03 | #3

    Parabéns pela matéria, Adamo!

    “Um povo sem memória, é um povo sem história”, por isso a criação do Espaço Memória da Viação Garcia para preservar nossa história e a evolução do transporte no Brasil.

    Respondendo à indagação do Marcos Katsuragi, a poltrona onde o Papa João Paulo II sentou foi preservada durante muitos anos em uma redoma de vidro, retornando posteriormente ao veículo, onde se encontra atualmente.

    Obs: Peço a gentileza de corrigir o nome do neto do fundador no 5º parágrafo, de `Guilherme Cid Barbosa´ para Guilherme Garcia Cid.

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