Descarte de pneus inutilizados: um problema com soluções óbvias e baratas, mas que ainda é um grande desafio para muitas empresas de transporte

Por , em 12 de dezembro de 2009.

Destinação correta de pneus que não servem mais para o transporte ainda é um grande entrave encontrado por empresas. Em contrapartida, associação de fabricantes possui centros de reciclagem espalhados por todo País. Diversas empresas e até o setor siderúrgico apresentam alternativas, que deveriam ser mais difundidas.

Pneu Estourado de ônibus: Grande desafio de empresas é encontrar destino certo para os pneus que não servem mais.

Pneu Estourado de ônibus: Grande desafio de empresas é encontrar destino certo para os pneus que não servem mais.

Os pneus representam o segundo maior gasto de uma frota de ônibus. Uma empresa, com aproximadamente 200 veículos, dispensa mensalmente cerca de 150 pneus, já que o uso para o transporte público, pelo fato de o ônibus rodar praticamente o dia todo, faz com que mais pneus sejam gastos e que durem menos em comparação a outros veículos.

Muitas empresas reformam os pneus de suas frotas, o que deixa o gasto com o insumo até 4 vezes menor se comparado com a compra constante de pneus novos. De acordo com entidades que representam empresas que reformam pneus, o Brasil é o segundo no mundo em recauchutagem.

Já em produção de pneus novos para ônibus e caminhões, o Brasil é quinto, ficando atrás de Estados Unidos, Japão, China e Coréia.

Mesmo o mercado de recauchutagem no Brasil sendo grande, há dois entraves para este tipo de reaproveitamento dos compostos de borracha e aço. O primeiro é em relação à vida útil: um pneu pode ser reformado com segurança por 3 vezes, no máximo. No processo, se aproveita a carcaça (a estrutura), reforçando-a e substituindo a banda de rodagem, a parte do pneu que entra em contato com o solo.

O segundo entrave é que, para manter a segurança de motoristas e passageiros, a resolução 316 do Contran – Conselho Nacional de Trânsito, proíbe a utilização de pneus recauchutados no eixo dianteiro dos ônibus. Isso porque, apesar de existirem empresas que fazem um ótimo serviço de reforma de pneus, há outras companhias que, a preços mais baratos, não oferecem tanta qualidade. De acordo com a Polícia Militar Rodoviária do Estado de São Paulo, as condições dos pneus (velhos ou mal conservados) são responsáveis por boa parte dos acidentes envolvendo veículos pesados: ônibus e caminhões.

A verdade é que muitas empresas de ônibus, por melhor intencionadas que possam ser, têm dificuldade para fazer o descarte correto dos pneus chamados inservíveis.

Muitas vezes, a empresa os vende para órgãos que acabam abandonando os pneus ou não os aproveitando corretamente.

Estimativa da ANIP – Associação Nacional da Indústria de Pneumáticos – , que reúne grandes fabricantes do setor, dá conta que pelo menos 100 milhões de pneus (não só de ônibus) estejam espalhados pelo Brasil, em terrenos baldios, áreas de mananciais, leitos de rios, ferros velhos e fundos de garagens de transportadores de passageiros e de cargas.

Sendo assim, a própria ANIP conta com um serviço especial de postos de coleta de pneus inutilizados que tem agradado muitas empresas do setor de transporte público.

Afinal, na garagem sem utilidade, os pneus representam custos, risco de contaminação (atenção para dengue) e ocupação inútil de espaço físico.

Retirada de talão de aço de pneu de ônibus em centro de reciclagem do programa Reciclanip

Retirada de talão de aço de pneu de ônibus em centro de reciclagem do programa Reciclanip

Desde março de 2007, está em funcionamento a Reciclanip, uma entidade sem fins lucrativos que recebe pneus inservíveis e dão diversos destinos aos compostos, desde combustível para indústria de cimento até acessórios femininos e revestimento de piso de quadras esportivas. São mais de 300 postos em 21 estados mais o Distrito Federal. Qualquer empresa pode participar e dar um destino confiável aos pneus que não vão mais utilizar nos serviços de transportes.

E a idéia pode contribuir e muito com o meio ambiente. Os pneus também poluem. A queima deles pode gerar mais agentes nocivos no meio ambiente do que um dia inteiro de funcionamento de um ônibus convencional a Diesel.

Isso porque, sendo derivado de petróleo, um pneu possui as mesmas característcas que um combustível, além de ter outros agentes usados em sua fabricação.. Acompanhe no quando com informações da ANIP:

Tabela 1: Composição química média de um pneu
Elemento/Composto %
Carbono 70,0
Hidrogênio 7.0
Óxido de Zinco 1.2
Enxofre 1.3
Ferro 15.0
Outros 5.5
Tabela 2: Comparação dos materiais contidos em pneus
Material Automóvel Ônibus
Borracha/Elastômeros 48 55
Negro de Fumo 22 22
Aço 15 25
Tecido de Nylon 5 -
Óxido de Zinco 1 2
Enxofre 1 1
Aditivos 8 5

Para se ter uma idéia, um pneu de ônibus, por ser maior, pode demorar de 300 anos a 600 anos para se decompor.
De acordo com a Reciclanip, os pneus podem servir para diversas aplicações:

Co-processamento: É o destino de 84 por cento dos pneus reciclados pela entidade. Por ser de alto poder calorífero, são usados como combustíveis em fornos para a produção de cimento. Os fornos possuem equipamentos para tratamento da fumaça emitida.

Laminação: Os pneus são cortados em lâminas e viram produtos como solas de sapato, cintos acessórios e até tubos para condução de água. Representa 4 por cento do material de pneu reciclado

Asfalto-borracha: Os pneus são triturados e viram pó de borracha que é misturado á massa asfáltica, dando-lhe um rendimento maior

Artefatos de Borracha: Servem para fazer tapetes de automóveis, piso de quadra poliesportiva, revestimento acústico e até na produção de peças para ônibus. O pneu sai do ônibus e volta para ônibus de outra forma. Representa 12 por cento do tipo de reciclagem.

Além disso, por lei e norma do Conama – Conselho Nacional do Meio ambiente -, os fabricantes de pneus são obrigados a dar destinação para 5 pneus velhos por 4 fabricados e 4 pneus velhos a cada 3 recauchutados.

O problema é que a lei obriga a destinação correta dos pneus inservíveis apenas para os fabricantes e não outros consumidores de grande porte.

OUTRAS INICIATIVAS

Além da Reciclanip, há outras iniciativas para a destinação dos pneus usados no setor de transportes coletivos de passageiros.

Uma delas é em relação ao aço. Indústrias siderúrgicas que usam o material têm atenção voltada às empresas de ônibus. Pelo fato de terem de agüentar muito peso, os pneus dos ônibus têm em sua estrutura muito do metal. Cerca de 25 por cento do peso do pneu de um ônibus são compostos de aço.

Empresas de ônibus também desenvolveram seus próprios programas.

A Viação Nossa Senhora do Amparo, de Marica, no Rio de Janeiro, retira por mês 150 pneus de sua frota de 180 ônibus e envia para órgãos credenciados pelo governo estadual do Rio.

A Catarinense, de Santa Catarina, tem acordo para fornecimento de pneus a empresas homologadas por órgãos ambientais federais e estaduais, já que a atuação da empresa é em vários estados, com garagens e pontos de apoio em diferentes localidades.

Em Pelotas, no Rio Grande do sul, uma parceria entre universidades, empresas e poder público é responsável pela fabricação dos Ecotubos, canos condutores de água feitos com a borracha dos pneus.

O ALUMÍNIO EM PROL DA BORRACHA

Outra alternativa usada pelas empresas de ônibus traz uma solução ecológica e ao mesmo tempo lucrativa.

É o uso de rodas forjadas de alumínio. Elas são mais leves e flexíveis. Dependendo da configuração do ônibus podem reduzir o peso bruto do veículo em até meia tonelada. Isso gera economia com manutenção, de combustível e gasta menos pneus, aumentando a vida útil do composto pneumático.

Apesar de poderem custar até 5 vezes mais que a roda de aço, muitas empresas afirmam que a economia posterior vale a pena.

É o caso do Grupo Real – que possui linhas do Centro-Oeste para todas as regiões do Brasil. O grupo é controlador da Real Expresso, uma das gigantes do setor.

Por telefone, o gerente de manutenção da Real Expresso, Paulo Sérgio Vilella, enumera as vantagens da roda forjada de alumínio.

“Poupa mais pneu e combustível porque deixa o ônibus mais leve. Além disso, sente menos os impactos dos buracos nas vias por ser mais flexível que as rodas de aço. A perda das rodas de alumínio por impacto se aproximam de zero no ano”

Paulo Sérgio Vilella também afirmou que as rodas forjadas de alumínio conferem uma estética melhor aos ônibus.

MUITO POUCO AINDA

O Brasil chega a produzir anualmente, de acordo com a ANIP – Associação Nacional da Indústria de Pneumáticos – cerca de 50 milhões de pneus novos para diversas aplicações, dependendo do ritmo da economia do País.

A maior parte deste pneus ainda ocupa áreas de mananciais, terrenos baldios e leitos de rios.

Apesar das iniciativas, ainda é feito muito pouco. Parte pela dificuldade dos empresários de ônibus, principalmente os menores, de encontrar destinos apropriados para os pneus.

Mas as iniciativas devem ser divulgadas para crescerem e estimularem outras empresas e associações. Afinal, tanto se fala em tecnologias tão caras e avançadas para deixar os transportes coletivos menos poluentes e se esquece de detalhes básicos, como para onde devem ir os pneus usados nos ônibus que não servem mais.

Confira abaixo o link com os postos de coleta de pneus da Reciclanip, da ANIP:

http://www.reciclanip.com.br/?cont=ecopontos_ecopontosnobrasil

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